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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Dialeto cearense


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O dialeto cearense é uma variante do português brasileiro falada no estado do Ceará. Conta com aproximadamente 8,5 milhões de falantes no próprio estado, além de milhares de falantes de origem cearense em outras áreas do Brasil. Possui variações internas, principalmente na Região Metropolitana de Fortaleza, na região do Jaguaribe e no Cariri cearense.

Índice

Características

Abaixo estão listadas algumas características típicas ou mais frequentes no dialeto cearense.

Pronomes de segunda pessoa

Os cearenses usam preferencialmente o pronome de segunda pessoa "tu", ao lado do pronome "você", mas ambos sempre com conjugação na terceira pessoa do singular.[1] O uso de um ou outro pronome está relacionado, no Ceará, ao nível de intimidade entre os interlocutores conjuntamente com a simetria ou assimetria do papel social exercido por eles, determinando o claramente o uso dos três pronomes de largo uso no dialeto: "tu", geralmente pronome indicador de familiariedade; "você", ora usado com um traço formal, ora íntimo, a depender da situação; e "o senhor", reservado não só a pessoas de status superior, mas também àqueles com quem não se tem qualquer tipo de intimidade. Ao contrário do que ocorre no Rio de Janeiro, por exemplo, há sempre uma concordância entre "tu" e "você" e suas formas oblíquas e possessivas, mesmo entre as pessoas de mais baixa escolaridade.

Abertura das vogais pré-tônicas [e] e [o]

A abertura das vogais médias pré-tônicas [e] e [o] (que passam para [ɛ] e [ɔ]) é típica dos dialetos do Norte-Nordeste do Brasil, distinguindo-os nitidamente dos dialetos do Centro-Sul. No dialeto cearense, porém, esse fenômeno é de caracterização peculiar, estando relacionado a uma regra de harmonia vocálica de traço relativa à vogal da sílaba posterior, além da neutralização e redução vocálicas, diferentemente do que ocorre no dialeto baiano e outros.[2][3] Assim, os cearenses pronunciam as vogais /e/ e /o/ abertas ou fechadas conforme a vogal da sílaba anterior induza sua abertura ou fechamento: por exemplo, tem-se "hotel" [ɔ'tɛw] mas "loteria" [lote'ɾiɐ].

Fonemas "nh" e "lh"

Há várias mudanças com os fonemas [ʎ] e [ɲ] ("lh" e "nh"):[4]
  • apagamento do "nh" antes da vogal "i" (p.ex., "rainha" > [hɐ̃'ĩɐ]);
  • iotização do "nh", em algumas situações, na sílaba medial () e, principalmente, na sílaba final com frequente apagamento da última vogal, geralmente [ʊ] ("tamanho" > [tɐ̃mɐ̃j̃] - "tamãe" - ou [tɐ̃mɐ̃j̃ʊ]; paninho > [pɐ̃'nĩ] ou [pɐ̃nĩʊ̃]);
  • iotização do "lh" em sílabas medial e final em algumas palavras, particularmente "filho" (que é realizado como [fij]);
  • contudo, aparece também com grande frequência a não-iotização, mas sim permanência, do "nh" e "lh" naquelas mesmas posições supramencionadas, o que parece ser influenciado em parte pela presença de vogais abertas ([a] [ɛ] [ɔ]) posteriores a esses fonemas.

Palatalização de fricativas (/s/ e /z/)

O dialeto cearense nem se configura como o sulista, nem como o carioca, quanto à possibilidade de palatalização das fricativas, mas num meio termo. As fricativas nunca são palatalizadas em final de palavra nem, no geral, antes de consoantes, mas apenas quando se seguem a elas consoantes alveolares dentais (/t/ e /d/). Assim, diz-se sempre "aspa" [aspɐ] e "mesmas" [mezmɐs], mas "estrela" [iʃ'tɾelɐ] e "desdém" [dɛʒ'dẽj̃].

Mudanças fonéticas e traços arcaizantes

Embora em decadência pelo aumento da escolaridade e por outras influências, há ainda muitos fenômenos de transformação fonética, principalmente nas zonas rurais, como apontado por Florival Seraine:
  • aférece = acostumado
  • Síncope: "xícara" > xicra [ʃikrɐ]
  • Epêntese: "cotovia" > "cutruvia" [kutɾu'viɐ]
  • Hipérteses: "ceroula" > cilora [si'loɾɐ]
  • Apócope: "ridículo" > ridico [hi'd(ʒ)ikʊ]
  • Prótese: "juntar" > "ajuntar" [aʒũ'ta]
  • Dissimilação: "manhã" > "menhã" [mẽɲɐ̃]
As variantes das zonas mais isoladas e rurais ainda retêm alguns aspectos e palavras do português mais arcaico, por exemplo, o ditongo /uj/ que se reduziu a /u/ modernamente ("fruito" e não "fruto"), e termos e formas alternativas como "magotes", "dezasseis" (dezesseis), "mior" (melhor), "tratos" (negócio), "pro 'mode" e "pr'amode" (derivado de "por amor de"), etc. Alguns dos fenômenos citados acima foram verificados em textos lusitanos de séculos atrás.[5]

Neutralização dos fonemas [v], [ʒ] e [z]

Um fenômeno típico do falar cearense, muito usado em imitações humorísticas do dialeto, é a neutralização dos fonemas [v], [ʒ] e [z] como simplesmente [ɦ], variante do fonema /r/ típico do Nordeste brasileiro, em várias situações, por exemplo: "estava" ([iʃ'tahɐ]); "mesmo" ([meɦmu] ou até ['meɦum]); e "gente" ([ɦẽt(ʃ)i]).
De início, via-se esse fenômeno como típico da fala plebéia e rural, gerando estigmatização do falante. Mais tarde, segundo alguns autores, essa transformação passa a ser vista como ocorrendo principalmente na linguagem rápida e descontraída, para fins de facilitar a articulação, representando assim uma variante dialetal usada em situações de familiaridade e relaxamento. Outros, contudo, consideram que ela é causada principalmente por fatores lexicais e interacionais. Assim, as causas que influenciaram essa mudança seriam: a natureza da consoante ou da vogal seguinte e a presença do morfema do pretérito imperfeito "ava".[6]

Variações internas

O dialeto do Ceará possui consideráveis variações internas de acordo com a região ou mesmo o nível social do falante, havendo notáveis diferenças entre os falares do Norte e do Sul do estado, assim como entre a língua culta urbana e a língua coloquial do interior rural. Essas diferenças se revelam principalmente em expressões e termos usados localmente, assim como palavras preferencialmente usadas numa área ou em outra (por exemplo, usa-se preferivelmente "ata" em Fortaleza e na Região Norte do estado, enquanto "pinha" no Cariri, ou ainda "fruta-do-conde"). No entanto, há também distinções fonéticas de região para região, particularmente com relação às mesorregiões Sul Cearense (qual pertence a Região Metropolitana do Cariri), Centro-Sul Cearense, e as microrregiões do Médio Jaguaribe, Sertão de Senador Pompeu e Serra do Pereiro onde o /t/ e /d/ são sempre dentais antes do fonema "i", e não palatalizados; o "n" não sofre palatalização como ocorre, por exemplo, em Fortaleza, tornando sutilmente diferente a pronúncia de "menino"; e, na fala popular rural, há vários exemplos de vocalização dos fonemas /r/ e /l/ ("salgado" > "saigado"; "porco" > "poico").

Variações das pronúncias no dialeto

Palavra Pronúncia nas mesorregiões e microrregiões citadas acima Pronúncia no resto do estado
menino mi'ninu mẽ'nĩnu
divertir diver'tir dʒiver'tʃir
amizade ɐ̃ mi'zadi ɐ̃ mi'zadʒi
pretendente prɛtẽ'dẽti prɛtẽ'dẽtʃi

Expressões populares: o cearês

O dialeto cearense possui grande quantidade de palavras e expressões populares usadas largamente pela população e que lhe são peculiares, dando ensejo até mesmo à publicação de vários dicionários de cearês catalogando essas expressões. Há termos no dialeto cearense com função expressiva e criados a partir de associações sensoriais ou imaginativas com o seu significado, como: bafafá, estrovenga, espilicute, mamimolência, escalafobético..[7] Ademais, há termos relacionados com a cultura e a economia locais, como alfinim ou alpercata, assim como derivações de corruptelas ou arcaísmos, como bribado e bêbo ("bêbado", decorrente de briba, corruptela de "víbora") ou canelal (derivado de "canela", significando um agrupamento de pessoas da ralé), ruma e arruma (que significa monte 'de objetos, pessoas'), assim como palavras formadas por derivação regressiva ou prefixação, como "eguar" (andar a ermo, vagar) ou, pelo contrário, "estrompa" (sujeito violento) e mucheada (corruptela de mancheia, punhado). Por fim, há diversas palavras usadas em sentido diverso do original, como branca em sentido de "cachaça" e amarelo como sinônimo de "pálido", e uma série de arcaísmos do português que persistiram no dialeto cearense, principalmente rural, como malino e assoprar.[8]
Algumas marcas do dialeto cearense, mas não necessariamente exclusivas dele, são as interjeições usadas frequentemente para dar expressividade às frases, tais como: eita!, arre égua!, ave! ou ave maria!, vixe!(que vem de virgem) ou ixe!, oxe! (mas raramente oxente), diab'é isso, pera hóstia (corruptela de pela hóstia). Há também formas regionais de termos para serem usados como vocativo, como macho e suas variantes (, mancho, manch, mach, macho véi), assim como cabra (ou mais comumente caba).
Algumas expressões e termos típicos do dialeto cearense são:[9]
  • Adjetivos: abestado (bobo, desatento, otário), abirobado (louco), amancebado (relativo a quem vive com alguém sem casar-se), amarelo queimado (cor laranja, termo alternativo a este), espilicute (referente a crianças fofas, graciosas além de desinibidas), gasguito (pessoa com voz estridente ou esganiçada), marmota (estranho, desajeitado), peba (ordinário, de baixa qualidade),biloto (botão), carão (bronca, sermão), tabefe (tapa), malamanhado (mal vestido), malaca (malandro), fulerage (sem futuro[pessoas], qualidade baixa[coisas]), buxuda (grávida), pitaco (palpite), etc.
  • Substantivos: galalau (homem alto), varapau (pessoa muito magra e alta), cambito (perna muito fina), batoré (pessoa muito baixa), curubau ou canelau (gente rude, ralé) Catiroba(mulher feia, desajeitada) Catita (também mulher feia, desajeitada), etc.
  • Verbos e expressões típicas: segurar vela (acompanhar um casal), magote de gente (multidão), estar avexado (estar com pressa), arroxar (apertar), sentar a mãozada no peduvido (dar um tapa ao ouvido), tomar umas (beber drinks), riscar a faca ( brigar ou se preparar para a briga), amancebar-se (casar), tirar uma pestana (cochilar), meter o pé na carreira (correr), dar cabimento (dar liberdade), arrudiar (dar a volta), pedir pinico (desistir), ariado (desorientado), ser cagado (ser sortudo), emburacar em algum lugar (entrar sem avisar), estar de bode (estar menstruada), estar liso(estar sem dinheiro), alisar (alisar, perder todo o dinheiro), estar na bagaceira (estar solteiro, estar solteiro numa festa), rebolar no mato (jogar fora, jogar no lixo), dar fé (perceber), lascar-se (ficar na pior), pastorar (vigiar), botar pra moer (divertir-se), etc.

Referências

  1. Freire, Gilson Costa. A REALIZAÇÃO DO ACUSATIVO E DO DATIVO ANAFÓRICOS DE TERCEIRA PESSOA NA ESCRITA BRASILEIRA E LUSITANA. 2005
  2. Sobre as vogais pré-tônicas no Português Brasileiro. gel.org.br. Página visitada em 23 de abril de 2012.
  3. VARIAÇÃO INTER- E INTRA-DIALETAL NO PORTUGUÊS BRASILEIRO: UM PROBLEMA PARA A TEORIA FONOLÓGICA. ich.pucminas.br. Página visitada em 23 de abril de 2012.
  4. A DESPALATALIZAÇÃO E CONSEQÜENTE IOTIZAÇÃO NO FALAR DE FORTALEZA. profala.ufc.br. Página visitada em 23 de abril de 2012.
  5. As descrições fonológicas do português do Ceará: de Aguiar a Macambira. protexto.ufc.br. Página visitada em 23 de abril de 2012.
  6. A NEUTRALIZAÇÃO DOS FONEMAS / v – z - Z / NO FALAR DE FORTALEZA. profala.ufc.br. Página visitada em 23 de abril de 2012.
  7. MONTEIRO, José Lemos. Fontes bibliográficas para o estudo do dialeto cearense. Revista da Academia Cearense da Língua Portuguesa. Fortaleza, 9 : 68-94, 1995
  8. Avexado Dicionário Cearês. web.archive.org. Arquivado do original em 18 de janeiro de 2009. Página visitada em 23 de abril de 2012.
  9. Dicionário Cearês Girias Ceará ABC Cearense. web.archive.org. Arquivado do original em 1º de dezembro de 2008. Página visitada em 23 de abril de 2012.
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