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terça-feira, 24 de maio de 2011

E AGORA... A "TIGRESA" DO CAETANO É OU NÃO O FEMININO DE TIGRE... - NO MEU TEMPO DE ESCOLA, NÃO

Dizem que o Caetano é que inventou esse termo "tigresa". Na língua portuguesa, "tigre" é daqueles substantivos que usam "macho e fêmea" (epicenos?)



Caetano e Gilberto Gil vivem inventando muitas palavras, não é mesmo?




Rangel Alves da Costa*


Mas que erro gramatical mais escracho, mais absurdo, vez que triga nunca foi feminino nem de trigo e muito menos de tigre. E os doutores das estruturas morfológicas das palavras logo ensinariam: o feminino de tigre é tigresa, animal mamífero digitígrado.
Lição maravilhosa essa de dizer que tigresa é o feminino de tigre. Mas bem que poderia ser tigra, se não fosse triga. Até aí tudo bem: tigra não soa bem, possui uma pronúncia muito vulgar. Ademais, aquela música de Caetano não seria a mesma: “Uma tigra de unhas negras e íris cor de mel...”.
Contudo, como já afirmado, não falo aqui nem da tigresa supostamente correta e nem da tigra supostamente errada, mas da triga, que é verdadeiramente a fêmea do tigre, e ao longo da vida vem sendo alvo constante de preconceitos e discriminações.
Discriminação porque a triga é da classe dos felídeos pobres; preconceito porque a triga não possui a beleza de uma tigra nem a sensualidade exótica de uma tigresa. Nascida nas brenhas do lugar mais distante dos mais distantes, onde as pedras reinam no reino da ventania, a triga sempre foi vista com esse olhar enojado que possuem os ditos civilizados.
Igual campesina, mulher do mato, matuta mesma, mas que tem o dom de ser uma verdadeira Maria e carregar nas costas toda uma família, a triga é verdadeiramente uma fêmea que faz a hora e não espera acontecer. Enquanto o seu macho é cantado e decantado pelo mundo animal, ela se vira como pode nas brenhas para alimentar os seus e sustentar a fama nem tanto merecida de seu macho.
Enquanto o tigre é filmado pelas redes de televisão, sua fama, beleza, velocidade e ferocidade são mostradas com relevância para os fanáticos do mundo selvagem, sua triga levanta ainda no meio da noite para caçar comida para os filhotes, para demarcar com urina os arredores da moradia, para subir nos galhos mais altos das árvores para enxergar as queimadas e as proximidades dos homens.
Enquanto o famoso tigre se prepara para fazer uma apresentação no grande circo Vostok, no Domingão do Faustão e passar uma semana nos bastidores da Record gravando um piloto para o Domingo Espetacular, e por isso todo arrumado, com o pelo lisinho e bem penteado, cheirando a tigre francês, sua triga não está nem aí para essas babosidades. Se ao menos isso rendesse comida pra dentro de casa ainda ia, mas não, pois tudo que ele ganha gasta em fast-food animal.
Na verdade, a triga, fêmea, feminina até dizer chega e até onde saiba única mulher do badalado tigre, nem nome tem. Enquanto ele, o seu esposo tigre, é sempre anunciado como o senhor das florestas, o felino dos felinos, o felino das garras de ouro, ela é simples aquela. E aquela que lava, passa, costura, cultiva, semeia, sofre, chora, implora, sorri, lamenta, se preocupa com tudo, vive para o seu mundo, se contenta com a felicidade que lhe chegar.
O nome da triga poderia ser Maria, Joana, Josefa, Luzia, Constança, Esmeralda, qualquer nome bonito, simples e pacato, mas que ao ouvir os que estão além da floresta logo virariam os olhares. Stephanie, Mariénne, Charlotte, Fabíola, Fernanda, Carol, nenhum desses nomes caberia numa triga que tem as garras carcomidas da luta, as patas rachadas pela aridez do lugar, o corpo lanhado pelas durezas das matas.
A triga não se importa nem nunca se importou com nada de ruim que dela possam falar. Como uma Maria séria, conhece a si mesma e isso lhe basta para viver em paz no seu mundo e com a sua consciência. Por mais que lhe dessem a opção de mudar para tigra ou tigresa, certamente responderia que a pessoa, ainda que animal, vive é pelo que é e não pela denominação bonita que lhe queiram atribuir.
Nasceu triga e triga continuará. Fêmea do tigre, mulher do felino, mas apenas triga. Se o seu marido, nas baladas da fama que freqüenta e nos programas que participa achar por bem arrumar outra, certamente será uma tigresa, sinônimo de safadeza. Mas ela nem se importa com isso, mas sim em ser triga e basta.
Na verdade, esta é uma homenagem a todas as trigas mulheres que andam por aí na luta diária, de sol a sol, na dolorida sobrevivência. Se quisessem ser tigresas certamente cairiam no mundo da ilusão, onde tudo passa. Mas pelo amor a si mesmas continuam apenas trigas.

Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

Rangel Alves da Costa
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2011
Código do texto: T2970933

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Uma tigresa de unhas
Negras e íris cor de mel.
Uma mulher, uma beleza
Que me aconteceu.
Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel.

Enquanto os pelos dessa
Deusa tremem ao vento ateu,
Ela me conta, sem certeza,
Tudo o que viveu:
Que gostava de política em mil
Novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin? Days.

Ela me conta que era atriz
E trabalhou no Hair.
Com alguns homens foi feliz,
Com outros foi mulher.
Que tem muito ódio no coração,
Que tem dado muito amor,
Espalhado muito prazer e muita dor.

Mas ela ao mesmo tempo diz
Que tudo vai mudar,
Porque ela vai ser o que quis
Inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz,
Vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão.

As garras da felina
Me marcaram o coração,
Mas as besteiras de menina
Que ela disse, não.
E eu corri pra o violão num lamento
E a manhã nasceu azul.
Como é bom poder tocar um instrumento.




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