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terça-feira, 24 de maio de 2011

“Eu/Nós” ou “a gente”?


23/05/2011
Élida Pereira Jerônimo

Na sala de aula e em congressos lingüísticos a discussão sobre a utilização do termo “a gente” na língua portuguesa tem-se “acirrado” a cada dia.

O termo tornou-se comum na sociedade. Vemos políticos, jornalistas, professores, advogados, alunos, etc... Todos substituindo pronomes pessoais do caso reto (eu e nós) pelo termo “a gente”.

Não sou especialista em língua portuguesa e nem sou perfeita em todas as minhas colocações, mais por ouvir tanto “a gente” e achar “estranho” resolvi pesquisar e escrever sobre o assunto.

Em situações de comunicação, há três pessoas envolvidas: emissor (a pessoa que fala): eu ou nós; receptor ou interlocutor (a pessoa com quem falamos): tu ou vós; e assunto (a pessoa de quem falamos): ele, ela ou eles e elas.

Nesta vertente percebemos que nas comunicações (discursos/repertórios), os emissores não incluem nas falas os pronomes “eu” e “nós” e sim “a gente”. O que era substantivo passou a ser pronome.

E segundo John Robert Schmitz (professor do Departamento de Lingüística Aplicada, no Instituto de Estados da Linguagem da Unicamp), “...o Francês, o espanhol, o italiano e o catalão mantêm “gente” como substantivo. A presença de “a gente” no português oferece "certo problema de aprendizagem" para falantes de espanhol, italiano e outros idiomas, pois os aprendizes nem sempre percebem que "a gente" funciona como substantivo...”

Quando um líder/político em meio ao discurso diz: “A gente é contra o aborto”, o que entendes desta fala? Entre tantas pessoas, quem é contra o aborto? Ele (emissor/sujeito da oração), ou todos os presentes (receptor/interlocutor)? Neste caso acho que o emissor não deve generalizar, porque não sabe a opinião/posição de todos quanto à matéria, por isso entendo que deveria ser dito: “Eu sou contra o aborto”. O emissor assume sua posição e riscos pelo discurso. O termo “a gente” soa como subterfúgio, a impressão repassada é de que a pessoa não quer se comprometer.

A rede globo transmite um anuncio recheado de “a gente” e ao final estampa na tela: “a gente se liga em você”, no fantástico a apresentadora Patricia Poeta anuncia: “o repórter (fulano) conta pra gente como aconteceu”, ao final de outra reportagem “a gente viu”. “A gente” está impregnada na fala dos emissores e de tanto conviver/ouvir pessoas comunicando dessa forma, acabamos adquirindo o hábito, ora dizem: “fica com a gente” em vez de: fique conosco, é “um amigo da gente” em vez de: é um amigo nosso. E assim tudo se transforma em “a gente”.

Nos sites: “Recanto das Letras”, “Portal encantado” e vários outros postaram uma matéria intitulada: O Português agradece (E nossos ouvidos também) e seguem explanando: NUNCA diga AGENTE (Se é um agente, ele pode ser secreto, aduaneiro, de viagens...) A GENTE = NÓS.

Alheio a isto o referido termo não tem prestígio oficial é considerado desapropriado em textos formais como: procurações, textos jurídicos, requerimentos, despachos, leis, Portarias, editais, alvarás, boletins de ocorrência, atestados, escrituras, teses, dissertações, dentre outros, e se utilizado em um concurso/vestibular a colocação certamente será considerada infeliz, exceto se relatar uma prosa.

Ora se colocamos os pronomes corretamente no papel, porque não conseguimos pronunciá-los? Porque “a gente” fala mais alto?

Ana Maria Zilles, numa pesquisa de vulto sobre o tema, publicada em 2000 na prestigiosa revista Language Variation and Change, comenta que o substantivo "a gente" em português adquiriu no curso de seu desenvolvimento a função gramatical de pronome. Ana Maria informa que existe um paralelo com o pronome "você", que se originou da forma de tratamento "vossa mercê", utilizada inicialmente para se dirigir ao rei, mais tarde usada por entre a nobreza na corte e mais recentemente pela burguesia portuguesa e brasileira. No seu desenvolvimento histórico, "vossa mercê" sofreu várias reduções fonológicas: vossamecê, vosmicê, você. A diferença entre os dois pronomes é que "você" se originou da elite, ao passo que "a gente" tem origem na fala popular.

Na minha concepção a transformação de “vossa mercê” em “você” contribuiu para evolução da língua portuguesa, o termo reduziu e melhorou sonoramente. Agora substituir “eu e nós” por “a gente” considero um retrocesso, pois soa como esquivo, mal colocado e sonoramente feio. Diremos: “a gente vai” para “eu vou?” ou a “agente vamos” para “nós vamos?”, e o absurdo “a gente te ama” em vez de “Eu te amo?”.

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